CLUBE DE FREVO

Os Clubes de Frevo têm suas origens nas corporações profissionais existentes no Recife das últimas décadas do século XIX. Na véspera do dia de Reis, alguns membros dessas corporações não trabalhavam e, reunidos, saíam formando um alegre e numeroso cortejo. Esses grupos passaram a se chamar Clubes Pedestres e desfilavam pelas ruas e becos das freguesias do Recife – Santo Antônio, São José e Boa Vista. Entre eles, destacam-se: Caiadores, Vassourinhas, Canna Verde, Clube das Pás de Carvão, compostos por trabalhadores assalariados, pequenos comerciantes, capoeiras, vendedores, ambulantes, prostitutas, e outros que se organizam e evidenciam a forma como as classes menos privilegiadas se inserem no Carnaval da cidade.

Foto: Rafa Medeiros/PCR

Nos anos 1960, os Clubes Pedestres perdem essa denominação e passam a se chamar Clubes de Frevo. Reelaboram sua estrutura e coreografias e incorporam novos personagens. Da estrutura anterior são mantidos elementos tais como o imprescindível estandarte. Os Clubes geralmente se apresentam com a seguinte formação: Faixa ou Abre-alas, Diretoria, Balizas-puxantes, Damas de frente, Destaques, Cordões, Porta-estandarte, Passistas, Orquestra e, em alguns grupos, carros Alegóricos.

TROÇA CARNAVALESCA

Foto: Wagner Ramos/PCR

As Troças assemelham-se aos Clubes de Frevo na sua composição, entretanto quase sempre têm na descontração e no improviso a tônica dessa brincadeira. Apresentam-se nas ruas do centro ou do subúrbio recifense. A palavra “troça” vem do verbo “troçar” que significa “ridicularizar”, “escarnecer”, “zombar de”. Palavras que traduzem o verdadeiro espírito da brincadeira. O surgimento de uma Troça está quase sempre ligado a uma história pitoresca, uma brincadeira nascida de uma reunião entre amigos. A despeito do seu histórico, destaca-se a presença de várias dessas agremiações com um caráter tão luxuoso que sua única diferença do Clube encontra-se no horário do desfile. Elas, geralmente desfilam pela manhã ou à tarde, já eles, se apresentam à noite.

CLUBE DE BONECO

Foto: Rafa Medeiros/PCR

Os Bonecos Gigantes surgem na Europa, provavelmente na Idade Média, sob a influência dos mitos pagãos escondidos pelos temores da Inquisição. Chegam ao Brasil com os portugueses, desfilando inicialmente em procissões e festividades religiosas na figura de bufões ou reproduzindo santos católicos.

A tradição de Bonecos Gigantes no Carnaval de Pernambuco destaca-se principalmente na cidade de Olinda. O primeiro, da enorme família de gigantes, foi O Homem da Meia-Noite (1931), como uma dissidência de sócios da Troça Carnavalesca o Cariri de Olinda. Depois a Mulher do Dia, o Menino da Tarde entre outros.

Os Clubes de Bonecos saem acompanhados por uma orquestra de metais ao som do frevo-de-rua e, ao contrário das outras Agremiações, não trazem Bandeira ou Estandarte, a principal alegoria é o Boneco. Há Bonecos com até três metros e meio de altura, que pesam em média 35 quilos. Em alguns Clubes, os Bonecos são considerados calungas pelos carnavalescos, o que significa dizer, que são investidos de fundamentos religiosos, ou representam entidades.

BOI DE CARNAVAL

Foto: Daniel Tavares/PCR

As manifestações que têm o boi como figura central remontam à antiguidade, às festas de glorificação e exaltação do animal, com origens marcadas pela religiosidade. No Brasil, sua presença está intimamente ligada à força motriz utilizada na pecuária e nos engenhos de açúcar do Nordeste.

A “brincadeira” aparece no Carnaval do Recife como uma forma derivada do Bumba-meu-boi, auto referendado no Ciclo Natalino que representa a morte e ressurreição do Boi. Os bois de Carnaval são caracterizados pela simplicidade, improviso e irreverência, e levam para a rua uma grande variedade de personagens, classificadas como figuras humanas, animais e fantásticas.

Algumas são indispensáveis, como o Capitão, Mateus, Bastião, Catirina, Doutor, Padre, Arlequim, o boi, a Ema, a Burrinha, o Babau, o Jaraguá, o Diabo, o Morto-carregando-o-vivo, a Caipora e o Mané Pequenino. Diferentemente do Buma-meu-boi ou boi de Terreiro, o Boi do Carnaval traz para a avenida apenas um cortejo dos personagens.

No desfile, os Bois normalmente trazem Estandartes ou faixas com uma mensagem ou com um tema. Alguns grupos apresentam alas e cordões (de

pastorinhas, de baianas, de caboclos, etc.), mas também há Agremiações em que os personagens desfilam livremente.

BLOCO DE PAU E CORDA

Foto: Diego Nigro/PCR

Os Blocos Carnavalescos Mistos, ou blocos de pau e corda, surgidos em 1920 nos bairros centrais do Recife, diferem dos Clubes de Frevo e Troças, que nas suas origens, foram considerados “perigosos”; advindos de famílias da classe média, a princípio se apresentavam entoando fados, modinhas e outras canções em voga. É importante destacar a sua semelhança com os grupos de pastoril -dança de origem europeia referendada no ciclo natalino – o que elucida a própria formação do bloco, com o coral composto pelas pastoras à frente. Ainda é possível apontar semelhanças com os Ranchos Carnavalescos Cariocas do século XIX.

De acordo com o pesquisador Leonardo Dantas silva, o aparecimento dos Blocos vai tornar possível “às moças e senhoras da chamada pequena burguesia […] saírem às ruas, mas protegidas por um cordão de isolamento, envolvendo todo o grupo e separando-o da multidão, sob a severa vigilância de pais, maridos, irmãos, genros e amigos”.

Distinto da maioria das Agremiações Carnavalescas que tem o Estandarte como abre-alas, no Bloco, o desfile é aberto pelo Flabelo – alegoria de mão que traz o nome, a data de fundação e o símbolo da Agremiação. Após o Flabelo, desfilam a Diretoria, as Damas de frente, os Destaques, os Cordões, o Coral feminino e a Orquestra de pau e corda, com base em cordas dedilhadas, sopros do naipe “das madeiras” e percussão.

A partir de 1973, com a concepção do Bloco da Saudade, surgem novos blocos atendendo a um movimento de recriação, homenageando os chamados de tradicionais. Compostos por profissionais liberais nascem diversos Blocos que se autodenominam Líricos.

Estas agremiações não estão presentes nos concursos oficiais, embora, atualmente, ocupem lugar de destaque no Encontro de Blocos na programação oficial.

CABOCLINHOS

Foto: Allan Torres/PCR

Manifestação popular originária da mescla indígena, os Caboclinhos, também chamados de Tribo de Caboclinhos, expressam um forte sentimento nativista. São homens, mulheres e crianças que apresentam vigorosas coreografias em ritmo marcado pelo estalido das preacas (espécie de arco e flecha de madeira). O baque é composto por caracaxás, surdo e inúbia podendo haver atabaque e caixa.

Por todo o Brasil são encontradas manifestações que referendam nossas origens indígenas, o Carnaval de Pernambuco apresenta o Caboclinho e a Tribo de Índio, essa última advinda da Paraíba. Grande parte desses grupos provém da Zona da Mata e Litoral do Estado.

A religião pode estar presente na manifestação por meio dos cultos indígenas, a pajelança, religião dos antepassados. É na Jurema ou Catimbó, como é popularmente conhecida, onde atua a maioria dos mestres e caboclos. Alguns grupos diferem desta linha, cultuando religiões afro brasileiras, ligadas a terreiros de Xangô e Umbanda.

A apresentação normalmente inicia com o Porta-estandarte (podendo haver mais de um), seguido de dois Cordões de Caboclos e Caboclas. No centro, o cacique (responsável pelas coreografias) e a Cacica (ou mãe da tribo). O desfile também conta com a presença do Pajé (ou curandeiro, orientador espiritual do grupo). Matruá (representa um feiticeiro); Capitão (chefe de uma das alas): Tenente (chefe da outra ala): Pêros (crianças da tribo) e dos Caboclos de Baque. De maneira geral a dança se apresenta em três momentos distintos: Guerra, Perré e Baião.

A indumentária é composta por atacas (de pé e mão), saiotes e tangas, confeccionada com penas (de Emma e de outras aves), lantejoulas, contas, búzios, espelhos, vidrilhos, cordas e sementes. Os adereços de cabeça são bastante diversificados: cocares, capacetes, cabeleiras, diademas, girassóis e leques, decorados com penas e lantejoulas. Apresentam-se descalços.

TRIBO DE ÍNDIOS

Foto: Marcelo Lacerda/PCR

Oriundas do Estado da Paraíba, as Tribos de Índios foram incorporadas ao Carnaval do Recife, sendo muitas vezes confundidas com os Caboclinhos. Apresentam danças bastante complexas, acompanhando o ritmo marcado pela musicalidade indígena, com temáticas ligadas à luta, guerra, morte e ressurreição.

O Feiticeiro desfila com roupa de palha e responde pelos efeitos de fogo e fumaça; o Espião como o nome indica, percorre toda a agremiação e o Puxante lidera as danças que se desenvolvem com o Perré, a Macumba e a Matança (encenação de luta para se tornar Pajé).

As primeiras Tribos de Índios que se apresentaram no carnaval do Recife foram a Tupi-guarani (fundada em 1951), a Tupi-Papo-Amarelo (1962) e a Paranaguazes (1953), as duas primeiras fundadas no Estado da Paraíba e a terceira criada em Pernambuco sob influência paraibana. A Tribo de Índio Tupi-Guarani era liderada por Perré, descendente de índio proveniente da Paraíba que influenciou o surgimento de diversos outros grupos do nosso Estado, deixando como legado, inclusive, um tipo de dança executada pelos Caboclinhos e pelas Tribos de Índios com seu nome.

No passado, os participantes normalmente pintavam o corpo de vermelho e usavam camisas de cetim ou veludo com desenhos de escudos e machados no centro. A indumentária, incluindo os leques e cocares, é confeccionada com penas de peru, e pato e de boá. O figurino, os adornos e o estandarte são ricamente decorados com franjas, lantejoulas e pedrarias e estão cada vez mais assemelhadas às dos Caboclinhos.

MARACATU NAÇÃO OU DE BAQUE VIRADO

Foto: Rafa Madeiros/PCR

Os grupos de Maracatu Nação também conhecidos pelo nome de Maracatu de Baque Virado têm origem nas coroações dos chamados Reis do Congo. Sob a proteção das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, promovem-se as coroações como mais uma forma de subordinaçãoe controle administrativo sobre os escravos. Estas eram encenadas durante os festejos litúrgicos dos santos e o cortejo saía às ruas em trajes reais. Com a abolição a festa desvincula-se da igreja e passa a integrar o Carnaval.

Os maracatus de Nação apresentam-se ao público como uma Corte ricamente trajada com sedas, veludos, bordados e pedrarias. À frente do cortejo vem o Porta-Estandarte: em seguida a Dama-do-Paço, pessoa que conduz a calunga (ícone consagrado, detentor do axé do maracatu). Continuando o préstito, surgem as Damas de Frente, as Baianas de Cordão ou Catirinas, as Baianas ricas.

Têm-se ainda representantes da corte como: Duque e Duquesa, Conde e Condessa, Marquês e Marquesa Embaixador e Embaixatriz, Príncipe e Princesa. A presença de dois homens segurando Lampiões, soldados romanos e Vassalos. A figura do Caboclo Arreiamá ou caboclo de Penas representa sabedoria dos povos indígenas e a proteção dos espíritos das florestas. O cortejo encerra-se com as figuras do rei e da rainha, que desfilam protegidos por um grande guarda-sol colorido (pálio), carregado por um escravo (pajem).

Fortemente ligadas às religiões de matriz africana, em especial o Candomblé, as Nações conhecidas como “tradicionais” encontram nos símbolos, cânticos, danças, indumentárias e adereços estreitas relações com os orixás, num movimento de luta, resistência e preservação das práticas culturais afro-brasileiras.

MARACATU DE BAQUE SOLTO OU RURAL

Foto: Allan Torres/PCR

Rica expressão da cultura afro-indígena no Carnaval de Pernambuco, o Maracatu de Baque Solto é também conhecido como Maracatu de Trombone, de Orquestra ou Rural. Nessa manifestação cultural é evidente a fusão de vários folguedos populares existentes nas áreas canavieiras do interior do Estado como: reisado, pastoril, cavalo-marinho, bumba-meu-boi, caboclinhos, entre outros.

A estrutura da brincadeira que migra do interior por fatores diversos, sofre profundas transformações ao entrar em contato com a cidade, com o Maracatu de Baque Virado,com a incorporação ao universo da Federação Carnavalesca e aoConcurso de Agremiações do Recife.

No Carnaval, desfila sob a orientação do apito ou movimento da bengala do Mestre, regente da movimentaçãodo terno e de todo o Maracatu. Quatro figuras principais abrem o cortejo: Mateus, Catirina, a Burra e o Caçador. Ainda à frente da Agremiação, a Bandeira ou Estandarte apresenta o grupo e é carregada pelo bandeirista, vestido à Luiz XV.

As toadas ou Loas são improvisadas pelo mestre e podem ser de vários tipos: a marcha de quadra, o samba de seis, o samba de dez e o galope de seis. Ao lado dele está o contramestre que repete com um coro os últimos versos cantados. Ao comando do mestre Caboclo, o único que fica de costas na apresentação, acontece a evolução da Caboclaria, chamada de manobras.

A figura que mais chama atenção certamente é o Caboclo de Lança – carregada de magia e beleza plástica, que se apresenta ao público com uma gola, ricamente bordada com lantejoulas, chocalhos, uma enorme cabeleira colorida e uma lança comprida ornada com fitas (a guiada).

Existe no Maracatu de Baque Solto, um Caboclo que não usa a guiada, é o Arreiamá, também conhecido por Tuxaua. Seu papel é de proteção dos espíritos ligados à Jurema Sagrada.

Como forma de ensaios, os Maracatus de Baque Solto realizam as chamadas “Sambadas”: encontro de mestres, orquestras e “maracatuzeiros”, que acontecem nos Terreiros de diversos Maracatus durante o ano.

ESCOLA DE SAMBA

Foto: Marcelo Lacerda/PCR

Em Pernambuco, o samba organizado em escolas adquire características próprias, como por exemplo, a incorporação de instrumentos de execução musical e coreografias herdadas do frevo, do maracatu, da capoeira, além de outras expressões.

No Recife, as primeiras referências do samba de escolas encontram-se no bairro de Casa Amarela, na batucada o Bando da Noite, mais tarde chamada Escola de Samba Quatro de Outubro. Nos anos 1930, a Escola de Samba Limonil, do bairro de Afogados, entra para a história do Carnaval da cidade. Na década de 1940, a chegada do Encouraçado São Paulo, que trazia sambistas entre seis tripulantes, contribuiu para o aumento de blocos e escolas de samba. Tais Agremiações encontram-se listadas nos grandes jornais de circulação da época.

AFOXÉ

Foto: Diego Nigro/PCR

A palavra afoxé remonta ao final do século XIX e constitui um termo com vários significados. Segundo alguns estudiosos, a palavra é de origem sudanesa áfohsheih e aparece em virtude da influência do povo sudanês sobre os bantus, utilizada para nomear nações e grupos administrados por governador negro. Vários estudos apontam o Afoxé no Recife, como uma manifestação proveniente da essência dos primeiros grupos de Maracatu.

Imbuído de um a caráter religioso e de manutenção de valores, o afoxé é uma expressão artístico-religiosa ligada às nações africanas.

Em Pernambuco, o primeiro Afoxé foi o Ilê de África, nascido no Recife em fins dos anos 1970, como uma proposta de resistência social, política e cultural. Mas é em meados dos anos 1980, que vários militantes do Movimento Negro Unificado vão às ruas com o Afoxé AlafinOyó. Contudo, se nos anos 1980 não existia mais do que uma dezena de grupos, hoje são mais de trinta.

Na rua, a organização de um Afoxé é caracterizada pela figura do Bandeirista, que abre o cortejo e apresenta a Bandeira da Nação; uma criança conduz o babalotim (símbolo sagrado do afoxé, também podendo ser carregado por uma mulher grávida); o corpo de bailarinos, ricamente ornamentados com panos-da-costa, fios de conta e torso nas cores do orixá patrono; a diretoria; e a sua percussão, composta por agbês (cabaça envolvida por uma rede confeccionada com fios de conta), atabaques (run, rumpis e lê) e agogôs. Alguns grupos trazem pessoas representando os orixás.

URSO OU LA URSA

Foto: Bruno Campos/PCR

A presença do Urso no Carnaval pernambucano é herança europeia. A longa convivência com o animal, desde tempos primitivos, promove sua incorporação às tradições culturais desses povos. Ao extrapolar o universo utilitário (como alimento, uso da pele, etc.), o Urso ganha imensa representatividade no imaginário popular, inúmeros registros na literatura, nas canções, na mitologia, no anedotário e até nos rituais religiosos o traduzem.

Inicialmente, a “brincadeira” se caracterizava apenas pela presença de um homem fantasiado de Urso, pelo Caçador, acompanhados de alguns músicos. Até hoje, quando se pensa em La Ursa, denominação popular da “brincadeira”, é comum imaginar crianças a brincar nas ruas durante o Carnaval, batendo latas, puxando alguém fantasiado de Urso e gritando “A La Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro”.

Os Ursos que participam do concurso de Agremiações Carnavalescas apresentam diversos outros elementos como Porta-Cartaz (uma espécie de estandarte); Tema; Faixa ou Abre-Alas (com o nome do Urso, ano de desfile e tema); Alas e Cordões; e uma Orquestra.

FONTE

Catálogo de Agremiações Carbavalescas – do Recife e Região Metropolitana – Recife. PCR, 2009.

Coordenação de Pesquisa: Eduardo Pinheiro. Pesquisa e textos: Alzenide Simões, Carmem Lélis, Eduardo Pinheiro, Hugo Menezes, Leilane Nascimento, Mário Ribeiro.
Supervisão de Texto: Carmem Lélis