Terça Negra celebra raízes africanas da cultura pernambucana

< Anterior  Próxima >
Foto: Sérgio Bernardo/PCR

A primeira edição da Terça Negra Especial de Carnaval, realizada ontem à noite (5), no Pátio de São Pedro, celebrou a diversidade da rica cultura ancestral pernambucana. Pessoas de gerações diversas, cantaram e dançaram ao som do maracatu, da ciranda, do coco e do afoxé. A leve chuva que caiu durante o evento não foi capaz de esfriar a animação do público.

O Maracatu Nação Cambinda Africano entrou poderoso no centenário espaço que também abriga a Igreja de São Pedro dos Clérigos. Sob o comando do Mestre Arlindo Carneiro Santos, filho do fundador Natércio Carneiro dos Santos, o Cambinda procura preservar toques mais cadenciados e tradicionais. O grupo contou com o reforço de integrantes de outro maracatu, o Raízes da África – cujo mestre, Walter França, contribuiu dividindo o cantar de toadas com o colega Arlindo.

Criado há onze anos no bairro do Ibura, o Afoxé Yamin Balé Gilê apresentou um espetáculo empolgante, mostrando a força da tradição de terreiro de Angola. Além dos homens do corpo percussivo e do coro feminino, o Yamim possui crianças em sua formação. “A gente trabalha muito a questão social dentro da comunidade. Fazemos oficinas de confecção de instrumentos, de percussão, de conscientização mesmo dos nossos jovens. O que é mostrado no palco é o resultado final disso”, explicou orgulhosa Michelly Miguel, coordenadora do afoxé.

Dona Deo do Coco, que está há 12 anos cantando o ritmo que forma seu nome artístico, mostrou repertório formado só com músicas de sua autoria. Com três discos lançados, ela inspirou o público a formar grandes e animadas rodas de ciranda, outro ritmo que domina muito bem. “O artista se fortalece quando chega num palco como esse e vê a alegria das pessoas, a aceitação do que a gente faz. É muita alegria”, vibrou Dona Deo em conversa com a reportagem, depois do show.

O olindense Viola Luz encerrou a noite com uma apresentação toda baseada em novos arranjos para maracatus de Erasto Vasconcelos. O irmão de Naná nos deixou em outubro de 2016, aos 70 anos. “Tive uma relação de mais de 30 anos com ele. É meu mestre. Esse show e todos o que vou fazer durante o carnaval vão ser em homenagem a Erasto”, ressaltou. Também faz parte do conjunto de criações “Vestido de azul”, música que Viola compôs após ter tido um sonho com o saudoso amigo.

Para Demir da Hora, a Terça Negra é hoje uma das referências da cultura afro de Pernambuco. “Nossa ideia é trazer a música da periferia para o centro, apresentá-la ao turista que chega no Recife, movimentar os bares e o comércio”, expõe o representante do Movimento Negro Unificado, instituição responsável pela organização do projeto, há 20 anos.